Eleições na Alemanha criam cenário político indefinido

Analistas veem negociações prolongadas entre líderes políticos

Novo governo alemão deve demorar para ser formado
Novo governo alemão deve demorar para ser formado (foto: EPA)
19:59, 27 SetSÃO PAULO Por Tatiana Girardi

(ANSA) - A pequena margem de vantagem que o Partido Social-Democrata (SPD) obteve sobre a União Democrata-Cristã (CDU) nas eleições realizadas neste domingo (26) mostra que o novo governo da Alemanha deve demorar a ser formado. Mas, isso não deve levar a nenhuma mudança abrupta na política nacional.

É o que apontam especialistas consultados pela ANSA no dia seguinte ao pleito alemão. Além disso, a disputa também colocou foco em duas siglas "coadjuvantes": Os Verdes - que conquistaram 15% dos votos - e o Partido Liberal Democrático (FDP), com 11,5%, e que poderão provocar um governo tripartite, sendo o primeiro da história.

Em sua primeira fala após o resultado oficial, o indicado do SPD para a Chancelaria, Olaf Scholz, afirmou que iria conversar com os verdes e os liberais para debater a formação de um novo governo. Com isso, em um primeiro momento, a parceria com a CDU, que ocorre desde 2013, não deve se repetir.

Mas, os analistas ressaltam que, muito provavelmente, a "Grande Coalizão" irá ocorrer novamente para manter a estabilidade política alemã.

O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Pedro Brites, vê o resultado como uma derrota dos conservadores, já que após quatro mandatos consecutivos, a CDU perdeu a "predominância" que tinha no país e vê alguns desafios tensos para a formação do novo governo.

"Dada a maneira como eleição se colocou, em face do resultado ser bastante apertado, acaba gerando muitos questionamentos e dúvidas em relação a como será possível montar um governo efetivamente estável nos próximos meses. Inclusive, isso indica que muito provavelmente até o final do ano ainda teremos Angela Merkel no poder", disse Brites à ANSA.

Lembrando que o governo alemão nunca foi tripartite, o professor ressalta que Scholz terá um desafio à frente, que deve ser marcado pela tensão.

"Obviamente, as duas peças-chaves nesse contexto são Partido Verde, o que mostra a importância de um tema como o das mudanças climáticas para o processo eleitoral alemão, e também o papel importante do FDP para esse atual contexto político. Então, esses dois partidos, que ficaram no terceiro e quarto lugares nas eleições, vão ter um papel central para definir quem vai efetivamente obter a maioria. A questão é será que o SPD ou a CDU vão conseguir negociar e oferecer coisas que sejam interessantes tanto para o Partido Liberal quanto para Os Verdes? Essa é a grande questão", ressalta.

Citando o discurso de Armin Laschet, que era o indicado dos conservadores para substituir Merkel, em que ele "cedeu, mas mostrou que ainda não se deu por vencido", Brites aposta que a CDU "fará um jogo duro também para poder se colocar à frente, quem sabe, mentalmente, para obter uma maioria".

"E é claro que o SPD vai ficar muito apegado ao resultado da eleição, que colocou eles na frente. Esse vai ser um debate interessante, que a gente vai ter que olhar com muita atenção nos próximos meses para ver quais serão os resultados", acrescenta.

Já o coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, Márcio Coimbra, não vê muitas alterações significativas.

"No final das contas, o resultado não é muito diferente do que a Alemanha tem hoje porque, se nós tomarmos os votos do SPD, da CDU e do FDP, que são três partidos que a gente pode considerar três centristas, eles têm 60% dos votos. O SPD venceu, mas venceu por uma margem muito pequena e isso significa que o eleitor alemão está buscando uma continuidade. Até porque o vencedor do SPD é Olaf Scholz que é o ministro das Finanças da Angela Merkel", ressalta Coimbra à ANSA.

Para o cientista político, "não vai haver uma mudança e a Alemanha continuará no mesmo caminho, com uma aliança que continue a mesma entre CDU, SPD - e entrando agora com o FDP".

"Na verdade, o que a gente vai ter é um rearranjo da coalizão de governo, talvez saindo da liderança da CDU e entrando na liderança o SPD, mas que não muda a coalizão de forças dentro das linhas que a gente já teve no governo Merkel - independentemente de quem for assumir a Chancelaria. Não houve nenhuma mudança forte para um lado ou para outro. Houve uma votação pela continuidade, mas como um pequeno rearranjo aqui ou ali", pontua ainda Coimbra. (ANSA).
   

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