Brasil não agradeceu oxigênio doado pela Venezuela, diz Araújo

Ex-chanceler prestou depoimento na CPI da Covid

Ex-chanceler prestou depoimento na CPI da Covid (foto: EPA)
19:22, 18 MaiSÃO PAULO ZCC

(ANSA) - O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo foi ouvido nesta terça-feira (18) pela Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) da Covid-19 e revelou que não entrou em contato com a Venezuela para conseguir uma doação de oxigênio para o Amazonas e nem agradeceu a entrega feita pelo país vizinho.

No dia 19 de janeiro, o governo venezuelano enviou caminhões com 100 mil m³ de oxigênio para Manaus, onde a falta de oxigênio provocou a morte de 31 pessoas e diversos pacientes diagnosticados com Covid-19 precisaram ser transferidos para outras cidades, segundo dados do Ministério Público de Contas.

Durante a sessão, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, questionou o chanceler se o governo brasileiro agradeceu ao menos os venezuelanos pela entrega de oxigênio.

"O senhor agradeceu ao gesto do governo venezuelano?", perguntou o senador. "Não", respondeu Araújo, acrescentando que "a doação foi oferecida pelo governo venezuelano".

Apesar disso, ele disse que "assim que chegou a notícia sobre a doação, a Agência Brasileira de Cooperação foi acionada para viabilizar o mais rápido possível a doação".

"Coloquei funcionários para monitorar, fizemos nosso papel sem nenhum impedimento de natureza política", respondeu ao senador Eduardo Braga (MDB-AM).

A comissão investiga ações e omissões do governo de Jair Bolsonaro no combate à pandemia, além do repasse de verbas a estados e municípios, incluindo o colapso no sistema de saúde de Manaus ocorrido em janeiro deste ano em meio a um novo surto da doença. O ex-chanceler ainda disse que recebeu pedido do governo do Amazonas para viabilizar um avião para transporte de oxigênio, mas explicou que o plano não deu certo por falta de informações técnicas.

Araújo contou que chegou a procurar as autoridades do Chile e dos Estados Unidos, que teriam aviões com capacidade para transportar grandes quantidades de oxigênio.

No entanto, o transporte não se viabilizou porque o avião americano ficaria pronto em 24 horas e o Ministério da Saúde não enviou as especificações do tipo de cilindro de oxigênio durante o prazo estimado.

Depois das declarações, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD), que é senador pelo Amazonas, enfatizou que todas as mortes registradas em Manaus poderiam ter sido evitadas.

"Enquanto estava morrendo gente sem oxigênio em Manaus, o oxigênio da Venezuela estava vindo pela estrada. Um voo da FAB [Força Aérea Brasileira], se o Ministério das Relações Exteriores tivesse interferido, em uma hora ia e voltava", criticou.

De acordo com Aziz, essa medida não foi tomada e, "enquanto a gente não conseguia um voo - e o desespero era grande - morreu muita gente". "Poderiam ter sido evitadas essas mortes se Vossa Excelência tivesse agido", continuou.

Araújo, por sua vez, alegou que o Itamaraty "não age de maneira autônoma em temas de saúde" e "não tem condições de avaliar o momento e em que condições é necessário proceder a essa ou àquela ação em relação ao sistema de saúde, no caso o suprimento de oxigênio".

Agora, o próximo a depor na CPI será o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, amanhã (19), enquanto que Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, falará na quinta-feira (20). (ANSA)

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