Secretária defende cloroquina, questiona OMS e contradiz Pazuello

Mayra Pinheiro está depondo na CPI e contradisse Pazuello em diversas vezes
Mayra Pinheiro está depondo na CPI e contradisse Pazuello em diversas vezes (foto: Frederico Brasil/Futura Press)
19:48, 25 MaiSÃO PAULO ZCC

(ANSA) - Em mais de seis horas de depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta terça-feira (25), a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, defendeu por diversas vezes o uso da cloroquina e acabou admitindo que a pasta orientou o uso do medicamento no combate ao novo coronavírus.

Ao longo do dia, a "capitã cloroquina" rebateu críticas de senadores ao medicamento e tentou absolver o governo federal em relação ao colapso do sistema de saúde em Manaus, no início do ano, apesar de suas declarações contradizerem as informações apresentadas pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.

Pinheiro, que é médica, deixou claro seu apoio ao uso da cloroquina na fase inicial do tratamento contra a Covid-19, mesmo sua ineficácia sendo cientificamente comprovada. Diversas entidades médicas, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), desaconselham o medicamento no combate ao novo coronavírus.

Ela disse que mantém a orientação "de que a gente possa usar todos os recursos possíveis para salvar vidas". Por outro lado, afirmou que nunca recebeu ordens para propagar o remédio. "Nunca recebi ordens, e a indicação desses medicamentos não é iniciativa minha pessoal", afirmou.

Além disso, a secretária ressaltou que a hidroxicloroquina e outros fármacos foram criminalizados com base apenas em duas pesquisas. "A gente teve um grande prejuízo à humanidade de pessoas que poderiam não ter sido hospitalizadas e não terem ido a óbito se a gente não tivesse criminalizado duas medicações antigas, seguras e baratas, que poderiam ter sido disponibilizadas e prescritas pelo médico", relatou.

Neste momento, porém, o senador Otto Alencar (PSD-BA), que também é médico, afirmou que a hidroxicloroquina é um medicamento antiparasitário e não para combater vírus.

"Não tem nenhum estudo que possa demonstrar que foi feita a primeira, segunda, terceira e quarta fases. Além disso, doutora, todos esses estudos têm que ser acompanhados do ponto de vista farmacológico, farmacodinâmico e farmacocinético, para saber como a droga no organismo do paciente desenvolve sua ação.

Hidroxicloroquina não é antiviral em estudo sério nenhum no mundo", rebateu.

Para ele, "essa insistência de permanecer no erro não é virtude, é defeito de personalidade". "Não é da senhora, não, eu estou me referindo até ao presidente da República", completou.

Durante o depoimento, Pinheiro também fez críticas à OMS, dizendo que a organização já fez recomendações "condenáveis" e "falhas". De acordo com a secretária do Ministério da Saúde, os países - e o Brasil - não são obrigados a seguir as orientações da entidade.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), por sua vez, alegou que ela mentiu à comissão e entrou em contradição.

Na sessão, Pinheiro também disse que apoia as medidas de prevenção contra a Covid, como o uso de máscaras e a vacina, mas contrária à chamada imunidade de rebanho.

No entanto, ao ser questionada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a médica disse não se recordar de nenhuma fala do presidente Jair Bolsonaro defendendo a prática de isolamento social como medida de contenção do coronavírus.

"A senhora se recorda de alguma fala do presidente da República defendendo o isolamento social?", indagou o parlamentar. "Não me recordo", respondeu a médica.

Pinheiro ainda afirmou que, ao longo da emergência sanitária, Bolsonaro fez uma visita ao Ministério da Saúde para tratar da Covid-19.

Por fim, ela declarou que não houve percepção por parte do governo federal de que faltaria oxigênio nos hospitais em Manaus em meio ao colapso no sistema público de saúde.

"Em Manaus, em uma situação extraordinária de caos, onde nós não temos noção de quantos pacientes vão chegar ao hospital, é impossível se fazer uma previsão de quando vai usar a mais. O que eles tiveram foi uma constatação, passaram de 30 mil metros cúbicos para 80 mil", explicou.

A médica foi questionada sobre uma eventual responsabilidade da pasta no agravamento da crise sanitária e respondeu que a culpa é do "vírus".

Ainda assim, as declarações de Pinheiro divergiram das dadas por Pazuello sobre a notificação de quando começou a faltar oxigênio hospitalar em 8 de janeiro. À CPI na semana passada, o ex-ministro sustentou que apenas teve conhecimento da situação na noite do dia 10 de janeiro.

"Eu estive em Manaus até o dia 5 [de janeiro]. O ministro teve conhecimento do desabastecimento de oxigênio em Manaus creio que no dia 8, e ele me perguntou: 'Mayra, por que você não relatou nenhum problema de escassez de oxigênio?'", afirmou a secretária.

Agora, a sessão desta quarta-feira (26) será destinada à votação de requerimentos. O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), declarou que tem 402 pedidos para serem apreciados, entre eles solicitações para convocar ao menos 12 governadores. (ANSA)

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