Imunidade natural de rebanho é impossível, diz médica em CPI da Covid

Luana Araújo também criticou discussão sobre tratamento precoce

Luana Araújo presta depoimento na CPI da Covid no Senado
Luana Araújo presta depoimento na CPI da Covid no Senado (foto: Agência Senado)
14:46, 02 JunSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - A médica infectologista Luana Araújo, que ficou apenas 10 dias no comando da secretaria de combate à pandemia do Ministério da Saúde, disse à CPI da Covid-19 nesta quarta-feira (2) que é "impossível" atingir uma imunidade de rebanho natural contra a doença, como defende o presidente Jair Bolsonaro.

Além disso, ela criticou a discussão sobre supostos tratamentos precoces contra o novo coronavírus, política também promovida pelo governo federal.

Araújo chegou a ser nomeada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para o cargo de secretária extraordinária de enfrentamento à Covid, mas, após 10 dias atuando na função, ela descobriu que a nomeação não seria efetivada.

Em seu depoimento à CPI no Senado, a infectologista disse ter recebido a notícia diretamente de Queiroga. "O ministro, com toda a hombridade que ele teve ao fazer o convite, me chamou e disse que lamentava, mas que a minha nomeação não sairia, que meu nome não teria sido aprovado", afirmou Araújo.

No entanto, a médica disse não saber por que sua indicação seria barrada. "Eu simplesmente fui comunicada de que, infelizmente, essa nomeação não sairia. Agradeci profundamente pela oportunidade de servir ao meu país, peguei minhas coisas e voltei para Belo Horizonte", contou.

Críticas

Questionada sobre a tese governista de que seria possível alcançar uma "imunidade natural de rebanho" contra o Sars-CoV-2, Araújo lembrou que este é um vírus de RNA, material genético que favorece o surgimento de mutações e variantes.

"É muito esperado que vírus com base em material genético de RNA sofram mutações claras ao longo do tempo. [...] Isso para explicar que uma imunidade de rebanho natural dentro do Sars-CoV-2 e da doença Covid-19 é impossível de ser atingida, não é uma estratégia inteligente", declarou a infectologista.

Segundo ela, a única forma de alcançar imunidade coletiva contra a Covid é por meio da vacinação, que induz "uma resposta muito mais sólida" do que a infecção natural, e "num período mais curto".

"E outra: a gente atinge a imunidade de rebanho com a vacinação sem sofrimento. Eu não posso imputar sofrimento e morte a uma população simplesmente pensando em atingir uma imunidade de rebanho. Isso não existe, não tem lógica", acrescentou.

Araújo ainda disse não ter discutido sobre tratamento precoce com Queiroga em seu curto período no governo, mas criticou esse tipo de política. "Somos absolutamente a favor de uma terapia precoce que exista. Quando ela não existe, não pode se tornar uma política de saúde pública", declarou.

Em seguida, a médica afirmou que a discussão sobre tratamentos precoces é "delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente". "Ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da terra plana a gente vai pular. Não tem lógica", disse.

A infectologista também ressaltou que, se fosse convidada novamente para o mesmo cargo, "provavelmente não" aceitaria. (ANSA)

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