PF investigará deputado que diz ter alertado Bolsonaro, afirma Onyx

Miranda, por sua vez, disse não se sentir coagido por ministro

Onyx Lorenzoni acusou irmãos Miranda de má-fé; deputado se disse tranquilo
Onyx Lorenzoni acusou irmãos Miranda de má-fé; deputado se disse tranquilo (foto: EPA)
13:13, 24 JunSÃO PAULO ZGT

(ANSA) - O ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Onyx Lorenzoni, afirmou que a Polícia Federal vai investigar o deputado Luís Miranda (DEM/DF) e seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luís Ricardo Miranda, após ambos denunciarem que havia "irregularidades" no contrato de compra da vacina indiana Covaxin.

Em coletiva de imprensa na noite desta quarta-feira (23), Lorenzoni afirmou que trata-se de "denunciação caluniosa" e que ambos "vão pagar" por terem dito que alertaram o presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre possíveis crimes.

"A má fé é clara. A suspeita da falsificação é forte. A Polícia Federal e os peritos que vão determinar. O presidente já pediu e o chefe da Casa Civil já enviou ao ministro Anderson [Torres, da pasta da Justiça e Segurança Pública] a abertura da investigação de todos os fatos pela Polícia Federal", disse o ministro.

Segundo o governo, o documento apresentado, que mostraria uma tentativa de antecipação de pagamento de três lotes de vacinas com data próxima ao vencimento, foi "alterado".

"Deputado Luís Miranda, Deus está vendo. Mas, o senhor não vai só se entender com Deus, vai se entender com a gente também. O senhor vai explicar e vai pagar pela irresponsabilidade, mau-caratismo, má-fé, denunciação caluniosa e produção de provas falsas", ameaçou ainda Lorenzoni.

Após a coletiva do ministro, o parlamentar se manifestou e disse não ter medo das ameaças do ministro. Para Miranda, ele e seu irmão estão sendo "coagidos" para que "fiquem calados".

"Não tem documento falso coisa nenhuma, é documento interno do Ministério da Saúde. Além da ameaça feita pelo ministro, quem comete crime é ele, porque os documentos são do próprio Ministério. Na mesma fala, ele diz que os documentos foram corrigidos. Afinal, são falsos ou foram corrigidos, como ele disse que ocorreu no dia 24 de março, dois dias depois da minha denúncia? Então manda-se corrigir um documento em vez de mandar apurar os possíveis crimes? A fala dele foi muito grave", disse o deputado ao portal "Metrópoles".

Reação da CPI

Após o discurso de Lorenzoni, a cúpula da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 no Senado também se manifestou e criticou o governo por tentar ameaçar os irmãos Miranda, que vão depor aos senadores.

Em entrevista à "GloboNews", o relator Renan Calheiros (MDB/AL) disse que não concorda com o que chamou de "intimidação" e que o ministro está tentando fazer uma "coação" com os dois.

"Mais uma vez, quero deixar claro que não aceitamos a coação do secretário-geral da Presidência. É a primeira vez que acontece de forma explícita uma interferência na investigação", disse Calheiros à emissora, alertando que pode entrar com um pedido de prisão de Lorenzoni por ameaça.

Já o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD/AM), também afirmou à "GloboNews" que a situação é muito grave e que se Bolsonaro foi avisado de problemas e não fez nada, "o presidente prevaricou".

O caso

Os irmãos Miranda começaram a ganhar destaque na mídia após ser revelado que o Ministério Público Federal (MPF) viu indícios de irregularidades na compra de 20 milhões de doses da vacina anti-Covid Covaxin, produzida pelo laboratório Bharat Biotech, em um contrato de R$ 1,6 bilhão.

A compra foi intermediada pela empresa Precisa Medicamentos, cujos sócios eram donos de uma empresa do setor, a Global Saúde, que tem uma dívida de quase R$ 20 milhões com o Ministério Público que nunca foi paga.

Por isso, o MPF investiga na esfera criminal diversas questões, como a necessidade dessa intermediação, a celeridade do governo federal com essa vacina em si - já que os demais contratos demoraram meses para serem analisados e fechados - e uma suspeita de superfaturamento no preço das doses. Cada uma saiu por US$ 15, a mais cara comprada no país, mesmo usando uma tecnologia tradicional.

Durante a investigação, que foi iniciada no Ministério Público de Brasília, Luís Ricardo Miranda revelou em depoimento que sofreu uma "pressão atípica" para aprovar a importação do imunizante e que foi solicitado que assinasse um recibo de pagamento antecipado de parte das doses.

Sempre conforme o servidor, ele relatou que achou a situação estranha e contou para seu irmão, que é um deputado bolsonarista. Miranda, então, organizou um encontro com Bolsonaro no Palácio da Alvorada, em 20 de março, onde ambos afirmam terem entregado documentos que comprovam "crimes" na compra dessa vacina. (ANSA).
   

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