Na CPI, deputado cita líder do governo em 'esquema' da Covaxin

Miranda diz que Bolsonaro citou nome de Barros ao ouvir denúncia

Luís Miranda revelou nome de Ricardo Barros durante oitiva da CPI (foto: Cláudio Marques/Futura Press)
09:06, 26 JunSÃO PAULO ZGT

(ANSA) - O deputado Luís Miranda (DEM-DF) apontou o líder do governo da Câmara dos Deputados, Ricardo Barros (PP-PR), como um dos envolvidos na pressão para liberar a compra da vacina Covaxin, do laboratório Bharat Biotech, quase ao fim da oitiva desta sexta-feira (25) da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19.

Ao longo da noite, tanto Luís Miranda como seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde, Luís Ricardo Miranda, foram sendo pressionados pelos senadores para revelar quem era a pessoa do governo que pressionava para a compra da vacina indiana, em esquema considerado suspeito de corrupção.

Após uma série de questionamentos mais precisos dos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Simone Tebet (MDB-MS), o deputado entregou o nome de Barros e disse que o presidente, Jair Bolsonaro, foi quem lhe disse que o líder do governo estava envolvido "no rolo".

"Eu não me sinto pressionado para falar, eu queria ter dito desde o primeiro momento. Mas é porque vocês não sabem o que eu vou passar. Apontar um presidente da República, que todo mundo defende como uma pessoa correta, honesta, que sabe que tem algo errado. Ele sabe o nome, sabe quem é, ele não faz nada por medo da pressão que ele pode levar do outro lado. Que presidente é esse que tem medo de pressão de quem tá fazendo o errado?", disse Miranda, que sempre foi um bolsonarista e se elegeu defendendo o atual mandatário.

A pressão dos senadores veio porque Miranda havia dito que, ao relatar as denúncias de possível corrupção na compra da Covaxin por meio da empresa brasileira Precisa Medicamentos, Bolsonaro fez a insinuação mais firme sobre um nome de político.

"O presidente falou, com clareza, que iria encaminhar todas as informações para o DG da Polícia Federal e chegou a tecer um comentário de um nome de um parlamentar, que eu não me lembro bem, que ele disse assim: 'é mais um rolo desse' e falou o nome da pessoa", pontuou.

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou ainda que foi Barros quem nomeou a servidora Regina Célia Silva Oliveira, apontada como a pessoa que "atropelou" o processo de autorização da compra da Covaxin, mesmo com Luís Ricardo tendo alertado para o risco de irregularidades.

Após a citação, Barros usou sua conta no Twitter para dizer que não era o parlamentar citado.

"Não participei de nenhuma negociação em relação à compra das vacinas Covaxin. "Não sou esse parlamentar citado", [sic] A investigação provará isso. Também não é verdade que eu tenha indicado a servidora Regina Célia como informou o senador Randolfe. Não tenho relação com esse fatos", escreveu.

No entanto, logo após a postagem, internautas recuperaram no Diário Oficial da União (DOU) a nomeação de Regina Célia, ocorrida em fevereiro de 2018, em portaria assinada por Barros, que ocupava o cargo de ministro da Saúde à época.

Barros também foi o principal articulador de um projeto na Câmara dos Deputados que queria "enquadrar", nas próprias palavras do deputado, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser mais rápida na liberação de vacinas anti-Covid.

Os irmãos Miranda prestaram um depoimento de cerca de 10 horas à CPI após ser revelado que Luís Ricardo tinha prestado esclarecimentos ao Ministério Público do Distrito Federal e dizia que houve uma "pressão atípica" para a compra da Covaxin.

Após ser revelado que o Ministério Público Federal (MPF) iniciou uma investigação sobre o tema, o irmão de Luís Ricardo afirmou que os dois tinham alertado o presidente Bolsonaro e o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello sobre os supostos crimes na importação da vacina.

O governo nega as acusações.

Em 26 de fevereiro, ainda quando os testes de fase 3 da Covaxin não tinham sido finalizados, o governo federal anunciou a compra de 20 milhões de doses em um contrato de R$ 1,6 bilhão. Até hoje, a vacina não recebeu o registro de uso emergencial da Anvisa.

O MPF investiga alguns pontos desse contrato, como a necessidade de um intermediário para a compra e a celeridade do processo, algo que não aconteceu com nenhuma outra fórmula comprada.

Também investiga um possível superfaturamento no preço por dose, já que essa é a vacina mais cara (US$ 15) adquirida pelo país, mesmo que use uma tecnologia tradicional. (ANSA).
   

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