Ministro da Defesa ameaçou não permitir eleição, diz jornal

Bolsonaro com o ministro da Defesa, Walter Braga Netto
Bolsonaro com o ministro da Defesa, Walter Braga Netto (foto: ANSA)
11:18, 22 JulSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - O ministro da Defesa, Walter Braga Netto, ameaçou não permitir a realização das eleições de 2022 se o Congresso não aprovar o voto impresso, de acordo com informações do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo o diário, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (Progressistas-AL), recebeu esse recado por meio de um "importante interlocutor político" no último dia 8 de julho.

"O general pediu para comunicar, a quem interessasse, que não haveria eleições em 2022 se não houvesse voto impresso e auditável. Ao dar o aviso, o ministro estava acompanhado de chefes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica", diz o Estadão.

No mesmo dia, o próprio presidente Jair Bolsonaro repetiu a ameaça publicamente durante conversa com apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada. "Ou fazemos eleições limpas no Brasil ou não temos eleições", disse Bolsonaro na ocasião.

O Estadão diz que o presidente da Câmara considerou o recado de Braga Netto como uma "ameaça de golpe" e procurou Bolsonaro, que teria dito que respeita "as quatro linhas da Constituição".

Essa não é a primeira vez que as Forças Armadas tentam interferir diretamente na vida política do Brasil após a ditadura militar. Em abril de 2018, o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, publicou uma mensagem no Twitter com uma referência velada ao julgamento de um habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que então cumpria pena em Curitiba.

"Asseguro à Nação que o Exército brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais", escreveu Villas Bôas na ocasião. O habeas corpus acabou negado.

As ameaças golpistas do governo Bolsonaro chegam em meio ao avanço da CPI da Covid no Senado, que investiga a participação de militares em possíveis esquemas de corrupção na compra de vacinas.

Além do general da ativa Eduardo Pazuello, que comandou o Ministério da Saúde durante o período mais mortal da pandemia no Brasil, a comissão apura os papéis desempenhados pelos coronéis Elcio Franco, Marcelo Blanco da Costa e Marcelo Bento Pires, o tenente-coronel Alex Lial Marinho e o ex-sargento Roberto Dias.

Blanco e Dias participaram das negociações para a compra de uma carga inexistente de 400 milhões de doses da vacina da AstraZeneca por meio da intermediária Davati - Dias inclusive teria pedido propina de US$ 1 por dose, segundo o policial militar Luiz Paulo Dominguetti.

Já Franco é investigado pelo atraso na compra de imunizantes, enquanto Pires e Marinho teriam pressionado o servidor da Saúde Luis Ricardo Miranda a agilizar a liberação da importação da vacina indiana Covaxin por meio da intermediária Precisa Medicamentos, contrato que tinha uma série de irregularidades e acabou suspenso.

Reação

Em evento no Ministério da Defesa, Braga Netto negou que teria ameaçado impedir a realização das eleições de 2022 se não houvesse voto impresso.

"Hoje foi publicada uma reportagem na imprensa que atribui a mim mensagens tentando criar uma narrativa sobre ameaças feitas por interlocutores a presidente de outro poder. O Ministro da Defesa não se comunica com os presidentes dos poderes por meio de interlocutores. Trata-se de mais uma desinformação que gera instabilidade entre os poderes da República em um momento que exige a união nacional", afirmou.

Segundo o general, as Forças Armadas "sempre atuarão dentro dos limites previstos na Constituição". (ANSA)

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