Jogos de Tóquio reacendem debate sobre cidadania na Itália

Cartola olímpico defendeu proposta de 'jus soli desportivo'

De cima para baixo, da esquerda para a direita: Lorenzo Patta, Filippo Tortu, Marcell Jacobs e Eseosa Desalu, vencedores dos 4x100m em Tóquio
De cima para baixo, da esquerda para a direita: Lorenzo Patta, Filippo Tortu, Marcell Jacobs e Eseosa Desalu, vencedores dos 4x100m em Tóquio (foto: EPA)
14:20, 09 AgoSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - As vitórias de uma Itália multiétnica nas Olimpíadas de Tóquio, encerradas no último domingo (8), reacenderam o acalorado debate no país sobre o reconhecimento de cidadania para filhos de imigrantes.

O time azzurro obteve no Japão seu maior número de medalhas em uma única edição de Jogos Olímpicos, com 40 no total (10 de ouro, 10 de prata e 20 de bronze), sendo que muitas delas foram conquistadas por atletas mestiços ou filhos de estrangeiros.

A começar pelo velocista Marcell Jacobs, medalhista de ouro nos 100 metros rasos, prova mais nobre do atletismo olímpico, e no revezamento 4x100 metros. Nascido em El Paso, Texas, Jacobs é filho de um militar afro-americano (de quem se aproximou apenas recentemente) com uma italiana.

Um de seus companheiros no título do revezamento 4x100m foi Eseosa Desalu, filho de imigrantes nigerianos nascido no norte da Itália e que obteve a cidadania do país europeu em fevereiro de 2012, dois dias após ter completado 18 anos.

E a lista não para por aí, incluindo nomes como o lutador cubano naturalizado italiano Abraham Conyedo, medalhista de bronze na categoria até 97 quilos da luta olímpica; e Daniela Mogurean, atleta de origem moldava que faturou o bronze na disputa da ginástica rítmica por equipes.

Além disso, Paola Egonu, filha de nigerianos e estrela do vôlei italiano, carregou a bandeira olímpica na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Tóquio.

O simbolismo desses resultados em um país que experimentou uma deriva antimigrantes no fim da década passada foi exaltado pelo presidente do Comitê Olímpico Nacional Italiano (Coni), Giovanni Malagò.

"Essa é uma Itália multiétnica e superintegrada. Trouxemos pela primeira vez atletas provenientes de todas as regiões da Itália e nascidos em todos os cinco continentes", comemorou Malagò, que comprou briga com a extrema direita ao propor a facilitação da cidadania para jovens esportistas filhos de imigrantes.

"Nossa proposta é de antecipar o procedimento burocrático para o jus soli desportivo, que hoje é algo infernal, dantesco", declarou.

Como é hoje

Atualmente, a Itália adota para fins de cidadania o princípio do "jus sanguinis", ou seja, "direito de sangue", que reconhece como italianos todos aqueles que são filhos de italianos, independentemente do local de nascimento.

No entanto, há alguns anos diversos partidos de esquerda e centro pressionam pela instituição do "jus soli" ("direito de solo") para conceder cidadania a crianças e adolescentes que tenham nascido de imigrantes na Itália e passado a vida no país.

Atualmente, filhos de estrangeiros só podem se tornar cidadãos italianos ao completar 18 anos e desde que tenham vivido ininterruptamente na nação europeia desde o nascimento. Em meio a esse contexto, algumas personalidades, como Malagò, defendem a facilitação da cidadania para jovens esportistas.

"É verdade que, ao completar 18 anos, você pode fazer o que quiser, mas se esperarmos esse momento para fazer o pedido vamos perder as pessoas. Às vezes são três anos de tramitação e, enquanto isso, o atleta que não pôde vestir o uniforme azul para de competir ou vai para o país de origem", declarou o cartola.

O próprio Desalu, que viveu 18 anos na Itália antes de ser considerado italiano, disse esperar que essa medida seja aprovada. "Isso poderia ajudar tantos atletas como eu", acrescentou.

Já a ministra do Interior, Luciana Lamorgese, responsável pelas políticas migratórias da Itália, afirmou que o debate levantado por Malagò é importante e "não deve ser lembrado apenas quando nossos atletas conquistam medalhas".

"A política deve fazer suas discussões, e espero que chegue a um consenso. Precisamos ajudar as segundas gerações a se sentirem parte integrante da sociedade", salientou a ministra em entrevista ao jornal La Stampa.

Mas a verdade é que os partidos nunca estiveram perto de um acordo sobre o tema. "A questão do jus soli não tem nada a ver com triunfos esportivos", disse o vice de Lamorgese, Nicola Molteni, da legenda de ultradireita Liga.

"A cidadania é resultado de um percurso de integração, um status, e não um direito. Aos 18 anos, de maneira consciente, uma pessoa pode escolher a própria cidadania", acrescentou.

Já o ex-ministro do Interior Matteo Salvini, secretário federal da Liga, atacou sua sucessora na pasta. "Ao invés de delirar sobre o jus soli, a ministra do Interior deveria controlar quem entra ilegalmente na Itália", disse. (ANSA)

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