Vaticano critica nova política migratória da Itália

País fechou seus portos para navios de ONGs no Mediterrâneo

Deslocados externos desembarcam em porto na Sicília, na Itália
Deslocados externos desembarcam em porto na Sicília, na Itália (foto: ANSA)
20:31, 27 JunCIDADE DO VATICANO ZLR

(ANSA) - O Vaticano fez nesta quarta-feira (27) uma dura crítica implícita ao governo da Itália e afirmou que é "inaceitável" usar navios "carregados de seres humanos" para defender "posições políticas".

Como o papa Francisco, pessoalmente, evita se envolver em questões internas das nações, a tarefa de desafiar as novas políticas migratórias de Roma coube ao substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé, Angelo Becciu.

Em entrevista à ANSA, ele reconheceu ser "injusto" que os países do Mediterrâneo, como Itália e Grécia, assumam todo o peso do acolhimento de deslocados externos, mas ressaltou que as lideranças não devem fazer política sobre a pele de migrantes e refugiados.

"Usar navios carregados de seres humanos para avançar posições políticas é inaceitável", declarou Becciu, citando ainda palavras do Pontífice: "Os imigrantes são seres humanos, e não números". "Pode ser impopular hoje defender os marginalizados, mas nem o Papa nem a Igreja podem faltar com sua missão", acrescentou.

O novo ministro do Interior da Itália, Matteo Salvini, endureceu as políticas migratórias do governo e fechou os portos do país para navios de ONGs que fazem operações de resgate no Mediterrâneo, em uma tentativa de obrigar outros Estados-membros da União Europeia a acolhê-los.

O primeiro deles, o Aquarius, da SOS Méditerranée, teve de navegar mais de mil quilômetros até a Espanha, enquanto o outro, da entidade alemã Lifeline, atracou nesta quarta-feira em Malta, país insular que fica entre a África e a Sicília. Ao todo, os dois salvaram quase 900 pessoas.

A Itália é o 43º país do mundo que mais acolhe refugiados e solicitantes de refúgio em números relativos e o 16º em cifras absolutas, segundo os dados do último relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur): 354 mil, o que equivale a 0,58% de sua população.

Na União Europeia, a Itália é a 11º em números relativos, atrás de Suécia, Malta, Áustria, Chipre, Alemanha, Grécia, Dinamarca, Holanda, Luxemburgo e França, nesta ordem. Em 2018, de acordo com o Ministério do Interior, 16.551 deslocados externos chegaram em solo italiano, queda de 77,39% em relação ao mesmo período do ano anterior.

No entanto, apesar do arrefecimento da crise migratória no Mediterrâneo e de outros países da UE e do mundo enfrentarem situações mais delicadas, o discurso anti-imigrantes continua rendendo popularidade na Itália, como mostram as recentes vitórias da Liga, partido de Salvini, nas eleições municipais. (ANSA)

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