Premiê da Itália sera ouvido em inquérito sobre pandemia

MP de Bergamo investiga não instituição de 'zona vermelha'

Giuseppe Conte será ouvido como 'testemunha informada sobre os fatos'
Giuseppe Conte será ouvido como 'testemunha informada sobre os fatos' (foto: EPA)
07:51, 11 JunBERGAMO ZLR

(ANSA) - O Ministério Público de Bergamo, no norte da Itália, convocará o premiê Giuseppe Conte a depor como "testemunha informada sobre os fatos" em um inquérito sobre a disseminação do coronavírus Sars-CoV-2.

Também serão ouvidos os ministros da Saúde, Roberto Speranza, e do Interior, Luciana Lamorgese. Os procuradores cogitam fazer a audiência em Roma e querem saber por que não foi instituída uma "zona vermelha" nas cidades de Nembro e Alzano Lombardo, primeiros focos de contágio na província de Bergamo.

O MP já registrou, na semana passada, os depoimentos do governador da Lombardia, Attilio Fontana, e do secretário de Bem-Estar Social da região, Giulio Gallera, também ouvidos como "testemunhas informadas sobre os fatos".

Na ocasião, Fontana foi recebido na sede do Ministério Público de Bergamo sob protestos e disse que a decisão de instituir uma "zona vermelha" cabia ao governo da Itália.

Assim que as autoridades descobriram os primeiros casos de transmissão interna do Sars-CoV-2 no país, no fim de fevereiro, o governo italiano transformou 11 cidades, sendo 10 na Lombardia e uma no Vêneto, em "zonas vermelhas", com bloqueios para impedir a entrada e saída de pessoas e até toque de recolher.

A mesma medida, no entanto, não foi tomada em Nembro e Alzano Lombardo, também na Lombardia. As duas cidades só entraram em quarentena em 9 de março, com o restante da região, e as outras partes do país começaram o lockdown no dia seguinte.

O sistema de "zona vermelha", revogado nas 11 cidades com o início da quarentena nacional, tinha regras mais rígidas do que as que vigoraram até meados de maio em toda a Itália. O lockdown dos últimos meses permitia a saída de casa por motivos de trabalho, para comprar alimentos e até para se exercitar, e nunca houve um toque de recolher que cobrisse todo o território italiano.

"Dia D"

A notícia sobre o depoimento de Conte chega no "Dia D" criado por um comitê de familiares de vítimas para apresentação de denúncias relativas à gestão da pandemia.

O grupo se chama "Noi Denunceremo" ("Nós Denunciaremos") e reúne mais de 57 mil pessoas em sua página no Facebook, que agrega histórias de indivíduos que perderam entes queridos para a Covid-19.

Cerca de 50 denúncias foram levadas ao Ministério Público de Bergamo pelo fundador do comitê, Luca Fusco, e por familiares de vítimas. As ações citam a suposta falta de informações para os pacientes e parentes sobre os riscos de infecção, especialmente no início da pandemia; a ausência de dispositivos de proteção em hospitais; e a escassez de médicos para a gestão domiciliar de pacientes sem necessidade de internação.

Além disso, questionam as decisões de não fechar o hospital de Alzano Lombardo e de não instituir um lockdown imediato no Vale Seriana, onde fica a cidade. "Queremos buscar a verdade sobre o que aconteceu na Lombardia - mas não apenas - para identificar os responsáveis e obter justiça", disse Fusco.

Segundo ele, há "responsabilidades políticas" nas mortes provocadas pela pandemia. "Nós, bergamascos, viajamos, trabalhamos, tomamos café e drinks enquanto o vírus circulava sem problemas. Estou convencido de que, se tivessem instituído imediatamente uma zona vermelha na província de Bergamo, não teríamos de fechar toda a Lombardia", acrescentou.

Fusco, no entanto, evitou apontar culpados. "Isso é responsabilidade do Ministério Público, com um inquérito que deve ser longo e difícil", declarou. O fundador do grupo Noi Denunceremo perdeu o pai para a Covid-19 em março e sequer pôde realizar um velório.

O corpo foi enviado para longe da cidade, e a família só recuperou a urna com as cinzas mais de 20 dias depois. Bergamo é a quarta província com mais casos na Itália em termos absolutos, com 13,7 mil, atrás de Milão (23,5 mil), na Lombardia, Turim (15,7 mil), no Piemonte, e Brescia (15,1 mil), também na Lombardia. (ANSA)

 

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