M5S recebeu dinheiro da Venezuela em 2010, diz jornal

Partido negou ter sido financiado pelo regime chavista

Beppe Grillo e Gianroberto Casaleggio, fundadores do M5S
Beppe Grillo e Gianroberto Casaleggio, fundadores do M5S (foto: ANSA)
08:16, 15 JunROMA ZLR

(ANSA) - A Venezuela teria financiado o Movimento 5 Estrelas (M5S), partido populista que detém a maior bancada no Parlamento da Itália, com 3,5 milhões de euros em dinheiro vivo em 2010.

A informação foi publicada pelo jornal espanhol ABC, que diz ter tido acesso a documentos confidenciais da Direção-Geral de Inteligência Militar do país latino-americano.

Segundo o diário, o repasse teria sido autorizado pelo então ministro das Relações Exteriores venezuelano, Nicolás Maduro, durante o governo de Hugo Chávez (1954-2013). O dinheiro teria sido enviado ao Consulado da Venezuela em Milão, endereçado ao consultor Gianroberto Casaleggio (1954-2016), ideólogo do M5S e de seu sistema de "democracia direta".

De acordo com o documento obtido pelo ABC, Casaleggio era o "promotor de um movimento esquerdista revolucionário e anticapitalista na República da Itália". O partido foi fundado pelo consultor e pelo comediante Beppe Grillo em 2009 e logo chacoalhou a política italiana, quebrando a polarização esquerda-direita.

Com um discurso antiestablishment, o partido cresceu na esteira do desencanto da população com a política tradicional e calcado na promessa de não fazer alianças com o "sistema", conquistando prefeituras de cidades como Roma e Turim.

Em 2018, o M5S se tornou o partido mais popular da Itália, com pouco mais de 30% dos votos nas eleições legislativas de março, e chegou ao governo em junho do mesmo ano, indicando Giuseppe Conte como primeiro-ministro.

O movimento se aliou em um primeiro momento com a Liga, de extrema direita, mas, após o rompimento da coalizão, em agosto de 2019, se juntou a legendas de esquerda e centro, como o Partido Democrático (PD), seu maior adversário até então.

Reações

O líder interino do M5S, Vito Crimi, disse que a reportagem do ABC é uma "notícia falsa simplesmente ridícula e fantasiosa". "Há pouco a dizer sobre isso, a não ser que, do distante 2010, fizemos uma campanha eleitoral com pouquíssimos recursos, frutos de microdoações dos cidadãos italianos. De resto, vamos avaliar se usaremos as vias legais. Mas certamente não nos deixaremos distrair por certas intimidações", declarou Crimi em uma nota.

Já a Embaixada da Venezuela em Roma chamou a matéria de "falsa e absurda" e prometeu acionar a Justiça. Segundo a representação diplomática, o M5S era "completamente desconhecido" no país em 2010.

Membros da oposição, no entanto, cobram esclarecimentos do governo. "O M5S sempre teve uma incompreensível simpatia pelo regime venezuelano, a ponto de isolar a Itália em nível europeu e ocidental neste delicado assunto. Pedimos que o governo esclareça imediatamente no Parlamento e que a magistratura seja célere ao investigar essas numerosas hipóteses de crime", disse a deputada Giorgia Meloni, líder do partido de extrema direita Irmãos da Itália (FdI).

O governo italiano não considera Maduro nem Juan Guaidó como presidentes da Venezuela, embora reconheça a legitimidade do opositor como mandatário da Assembleia Nacional. Roma defende a realização de eleições democráticas no país latino-americano e que esse processo ocorra por meios pacíficos.

Influência externa

Essa não é a primeira vez que um partido italiano é acusado de envolvimento com atores externos.

Uma reportagem feita pelo site BuzzFeed em 2019 revelou que Gianluca Savoini, ex-porta-voz de Matteo Salvini, líder da Liga, teria negociado um financiamento russo para o partido no fim de 2018.

O caso é investigado pelo Ministério Público de Milão, mas o ex-ministro do Interior diz que nunca pediu "um rublo sequer" a ninguém. (ANSA)

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