Parlamento da Itália aprova repasse à Guarda Costeira líbia

Acordo é alvo de críticas de entidades de direitos humanos

Migrantes resgatados pela Guarda Costeira da Líbia, em foto de arquivo
Migrantes resgatados pela Guarda Costeira da Líbia, em foto de arquivo (foto: ANSA)
14:28, 17 JulROMA ZLR

(ANSA) - A Câmara dos Deputados da Itália aprovou nesta quinta-feira (16), de forma definitiva, o financiamento das missões internacionais do país, incluindo 58 milhões de euros destinados a ações na Líbia.

O texto foi votado em duas partes: a primeira, que não compreendia a missão na nação africana, recebeu 453 votos a favor e nenhum contrário, enquanto a segunda, específica sobre a Líbia, teve placar de 401 a 23.

Ambas contaram com o apoio da oposição conservadora, mas os partidos governistas Livres e Iguais (esquerda) e Itália Viva (centro) não participaram da votação da segunda parte por discordar do acordo.

Dos 58 milhões destinados à missão na Líbia, 10 milhões irão para o projeto de assistência à Guarda Costeira do país, que foi treinada, equipada e financiada pela Itália para realizar resgates no Mediterrâneo.

No entanto, organizações humanitárias acusam as autoridades de Trípoli de prender migrantes e refugiados socorridos no mar em campos de concentração e de violar os direitos humanos de deslocados internacionais.

Em visita à capital líbia nesta quinta, a ministra italiana do Interior, Luciana Lamorgese, expressou o desejo de "acelerar" a colaboração com o governo de união nacional, mas cobrou a evacuação dos centros de detenção de migrantes por meio de corredores humanitários organizados pela União Europeia.

A parceria entre Itália e Líbia foi assinada em 2017, no governo de Paolo Gentiloni, de centro-esquerda, e provocou uma drástica redução nos fluxos migratórios no Mediterrâneo, acelerada no período em que o líder de extrema direita Matteo Salvini foi ministro do Interior (2018-2019).

"Há alguns anos poderíamos fingir que não sabíamos, mas hoje sabemos que dizer 'Guarda Costeira líbia' significa tráfico de seres humanos, estupros, torturas, homicídios. Financiá-la significa financiar quem mata, estupra, tortura", criticou Matteo Orfini, um dos poucos deputados do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, que votaram contra o repasse para a missão na Líbia.

Segundo o parlamentar, o apoio ao financiamento para a Guarda Costeira do país africano é uma das "páginas mais escuras" na história do PD, que faz parte do governo de Giuseppe Conte.

Crescimento

O número de migrantes forçados que cruzam o Mediterrâneo rumo à Itália vinha caindo desde 2017, quando Gentiloni assinou o acordo relativo à Guarda Costeira da Líbia, principal ponto de partida para as "viagens da morte" na região.

Em 2016, o país europeu acolheu 181,4 mil deslocados internacionais via Mediterrâneo, cifra que baixou para 119,4 mil no ano seguinte e 23,4 mil em 2018, quando Salvini assumiu o Ministério do Interior e endureceu as políticas migratórias.

Em 2019, cerca de 11,5 mil migrantes concluíram a travessia, de acordo com dados do governo. No entanto, as estatísticas oficiais mostram que a cifra voltou a subir neste ano: a Itália contabiliza a chegada de 9.775 deslocados internacionais em 2020, um aumento de 206% na comparação com o mesmo período do ano passado. (ANSA)

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