Após salvar o euro, Mario Draghi vai ao resgate da Itália

Mario Draghi presidiu o BCE durante oito anos
Mario Draghi presidiu o BCE durante oito anos (foto: EPA)
10:53, 03 FevROMA ZLR

(ANSA) - "O BCE está pronto para fazer o que for preciso para preservar o euro e, acreditem em mim, isso será o bastante." Essa frase, dita em 26 de julho de 2012, é o maior símbolo da gestão de Mario Draghi, novo primeiro-ministro encarregado da Itália, à frente do Banco Central Europeu.

Há oito anos e meio, o italiano enfrentava a crescente desconfiança de investidores em relação ao futuro do maior projeto de integração monetária do planeta. Com Estados endividados empurrando o euro para o abismo, Draghi resolveu deixar claro que não mediria recursos para evitar o colapso da moeda. E evitou.

Com uma ação decidida, o italiano deixou o BCE em outubro de 2019 como o grande responsável pela salvação do euro e agora assume uma das missões mais delicadas de sua trajetória: formar um novo governo para socorrer a Itália de uma crise política em plena pandemia de Covid-19.

Euro

Após seu famoso "whatever it takes", Draghi, com a oposição da poderosa Alemanha, anunciou um programa que previa a aquisição de títulos soberanos emitidos pelos membros da zona do euro. O instrumento nunca precisou ser usado, mas foi o suficiente para dar uma injeção de confiança nos investidores.

No início de 2015, o italiano anunciaria uma nova arma, ainda mais potente: a "flexibilização quantitativa" (QE). Com esse programa, o BCE injetou até 80 bilhões de euros por mês nos países da zona do euro, por meio da compra direta de títulos de instituições financeiras, com o objetivo de derrubar as taxas de juros, evitar o risco de deflação e impulsionar o crescimento econômico na União Europeia.

Em outras palavras, o Banco Central Europeu imprimiu trilhões de euros em moeda para aumentar a liquidez do sistema bancário no bloco, um instrumento que foi crucial para a recuperação de muitos países da região, inclusive a Itália.

Crise política

Encarregado pelo presidente Sergio Mattarella de formar um novo governo, Draghi terá agora desafios de outra ordem - considerando sua trajetória exclusivamente ligada ao mundo financeiro e acadêmico - e não menos complexos.

O primeiro deles será reunir apoio suficiente em um Parlamento fragmentado e com forças que apenas a muito custo encontram pontos em comum. Nenhum grupo político - direita, esquerda ou antissistema - tem maioria absoluta na Câmara e no Senado, e Draghi precisará de pelo menos dois desses três lados para governar.

Até o momento, apenas as legendas Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, e Itália Viva (IV), de centro, indicaram de forma clara que apoiarão Draghi e o governo "institucional" pedido por Mattarella - o IV é liderado pelo ex-premiê Matteo Renzi, que abriu a crise política ao romper com Giuseppe Conte.

Para alcançar maioria, no entanto, o ex-chefe do BCE ainda precisará do suporte do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), que já negou seu apoio, ou de pelo menos parte da coalizão conservadora (o principal candidato é o moderado Força Itália, de Silvio Berlusconi).

Se conseguir superar essa etapa, Draghi terá frente a si a tarefa de governar um dos países mais instáveis politicamente da União Europeia, com uma economia que despencou 8,8% em 2020 e a sexta maior taxa de mortalidade por Covid-19 em todo o mundo.

Trajetória

Nascido em Roma, em 3 de setembro de 1947, Draghi tem 73 anos e diplomas de graduação pela Sapienza Universidade de Roma e doutorado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos em economia.

A partir de 1975, deu aulas em algumas das principais universidades da Itália, como as de Trento, Pádua, Florença e Ca' Foscari (em Veneza), até 1991, quando assumiu o cargo de diretor-geral do Ministério do Tesouro, função que exerceria durante 10 anos, coordenando a privatização de estatais.

Em 2002, foi nomeado vice-presidente do banco Goldman Sachs e, no fim de 2005, assumiu o cargo de governador do Banco da Itália (o banco central do país europeu). Draghi ficaria no posto até outubro de 2011, quando renunciou para assumir o comando do Banco Central Europeu.

O economista já se definiu como "liberal-socialista" e é um europeísta convicto, mas pouco se sabe sobre seu posicionamento a respeito de outras questões, como o combate ao novo coronavírus e políticas sociais. (ANSA) 

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