Presidente da Itália encarrega Mario Draghi de formar governo

Mario Draghi aceitou encargo de formar novo governo na Itália (foto: ANSA)
10:55, 03 FevROMA ZLR

(ANSA) - Após o fracasso das negociações para reconduzir Giuseppe Conte ao cargo de premiê, o presidente da Itália, Sergio Mattarella, encarregou o ex-mandatário do Banco Central Europeu (BCE) Mario Draghi de formar um novo governo.

Em reunião no Palácio do Quirinale, sede da Presidência da República, na manhã desta quarta-feira (3), o economista e professor de 73 anos aceitou o encargo com reservas e agora tentará reunir apoio suficiente no Parlamento.

"O presidente da República recebeu o professor Mario Draghi, ao qual conferiu o encargo de formar um governo. O professor Draghi aceitou com reservas", diz um comunicado do Quirinale.

Em breve pronunciamento, o ex-mandatário do BCE agradeceu Mattarella pela confiança e disse que a Itália vive um "momento difícil" por conta da pandemia. "O presidente recordou a dramática crise sanitária, com seus graves efeitos na vida das pessoas, na economia e na sociedade", declarou.

De acordo com Draghi, essa emergência exige "respostas à altura da situação". "E é com essa esperança e esse empenho que respondo positivamente ao apelo do presidente da República. Derrotar a pandemia, completar a campanha de vacinação, oferecer respostas aos problemas cotidianos dos cidadãos e relançar o país são os desafios que nos esperam", ressaltou.

O novo encarregado de formar o governo lembrou que a Itália terá à disposição os recursos do fundo de recuperação da União Europeia, o que apresenta uma oportunidade de "fazer muito pelo país, com olhar atento ao futuro das jovens gerações e ao reforço da coesão social".

"Com grande respeito, me dirigirei sobretudo ao Parlamento, expressão da vontade popular. Estou confiante que, das conversas com os partidos e grupos parlamentares e do diálogo com as forças sociais, vão vir à tona união e capacidade de dar uma resposta responsável e positiva ao apelo do presidente da República", concluiu.

Apoio

Até o momento, apenas duas legendas indicaram explicitamente que vão dar seu voto de confiança a Draghi: Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, e Itália Viva (IV), sigla de centro que abriu a crise política ao romper com o governo Conte.

"Agora é o momento dos construtores, agora todas as pessoas de boa vontade devem acolher o apelo do presidente Mattarella e apoiar o governo de Mario Draghi. Agora é a hora da sobriedade", escreveu o ex-premiê Matteo Renzi, líder do IV, no Twitter.

O partido conservador Força Itália (FI), do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, também indicou que está disposto a apoiar o ex-presidente do BCE, mas ainda assim seria insuficiente para formar uma maioria no Parlamento.

Para ter um mínimo de governabilidade, Draghi precisará dos votos do antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S), dono da maior bancada parlamentar, ou da Liga, de extrema direita.

"O Movimento 5 Estrelas, já durante as consultas, havia dito que só aceitaria um governo político, portanto não votará pelo nascimento de um governo técnico presidido por Mario Draghi", disse o líder do M5S, Vito Crimi, no Facebook.

Já o secretário da Liga, senador Matteo Salvini, afirmou não ter "preconceitos" contra o ex-chefe do BCE, mas que é preciso "falar de corte de impostos e abertura de canteiros de obras com a perspectiva de eleições".

Voto antecipado

Além da Liga, apenas o partido ultranacionalista Irmãos da Itália (FdI) defende a convocação imediata de eleições, hipótese que não agrada Mattarella.

Em seu pronunciamento na última terça (2), o presidente lembrou que países que foram às urnas registraram um repique nos casos de coronavírus - a Itália já tem a sexta maior taxa de mortalidade por Covid-19 em todo o mundo - e que uma campanha eleitoral paralisaria a discussão de temas inadiáveis.

Entre outras coisas, o governo italiano precisa apresentar até abril o plano para utilização dos recursos do fundo de recuperação da União Europeia, do qual o país é o maior beneficiário, mas as eleições não poderiam ser realizadas antes de 60 dias após a dissolução do Parlamento.

Considerando o prazo necessário para homologação dos resultados e formação de uma maioria parlamentar, a Itália não teria um novo governo antes de maio. Além disso, o país ainda apresenta números preocupantes na pandemia do novo coronavírus - embora em queda - e precisa acelerar a campanha de vacinação para sair da crise sanitária.

"Manteríamos nosso país com um governo sem a plenitude de suas funções durante meses cruciais e decisivos para a luta contra a pandemia, para utilizar os financiamentos europeus e para fazer frente a graves problemas sociais", declarou Mattarella.

Governos técnicos

Essa não é a primeira vez que o presidente tenta favorecer um governo técnico. Em maio de 2018, devido ao impasse nas negociações após as eleições daquele ano, Mattarella convocou o economista Carlo Cottarelli para montar um gabinete que guiasse o país ao menos até o ano seguinte.

Na época, M5S e Liga tentavam formar um governo de coalizão que tinha um professor antieuro, Paolo Savona, como ministro da Economia. Mattarella barrou a indicação do economista e, para pressionar os dois partidos a escolher outro ministro, encarregou Cottarelli como premiê.

No fim das contas, o M5S e a Liga acabaram cedendo e formaram uma coalizão que duraria até o segundo semestre de 2019, com Giuseppe Conte como primeiro-ministro.

O último governo técnico na Itália foi o do economista Mario Monti, convocado em novembro de 2011 pelo então presidente Giorgio Napolitano para conduzir o país no auge da crise do euro. O mandato de Monti, marcado por políticas de austeridade fiscal, incluindo uma reforma previdenciária, durou até abril de 2013. (ANSA) 

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