Conheça os mais cotados para ser presidente da Itália

Entre eles estão Mario Draghi e Silvio Berlusconi

Atual premiê, Draghi é um dos mais cotados, mas sua eleição poderia abrir crise de governo (foto: ANSA)
15:26, 21 JanSÃO PAULO ZLR

(ANSA) - A partir da próxima segunda-feira (24), o Parlamento da Itália vai se reunir em sessão conjunta para eleger o próximo presidente da República.

Faltando apenas três dias para a primeira votação, uma nuvem de incertezas cobre o nome do substituto de Sergio Mattarella, que encerra seu mandato de sete anos em 3 de fevereiro e já disse que não quer ser reeleito, embora esteja entre os cotados.

Confira abaixo os principais candidatos a assumir o Palácio do Quirinale:

Mario Draghi

O atual primeiro-ministro é cotado desde o ano passado para substituir Mattarella e tem as características consideradas ideais para o cargo: perfil institucional, dons de mediação e sem um histórico partidário às suas costas.

Presidente do Banco Central Europeu (BCE) entre 2011 e 2019, Draghi, 74, é um dos responsáveis por evitar o colapso do euro no início da década passada e governa a Itália desde fevereiro de 2021, quando foi chamado às pressas por Mattarella para substituir Giuseppe Conte.

Mesmo sem experiência anterior em cargos políticos, Draghi conseguiu se equilibrar habilmente em uma aliança que vai da esquerda à extrema direita e inclui quatro ex-primeiros-ministros.

Com estilo discreto e pouco afeito a polêmicas, Draghi conquistou elogios de todos os partidos que o apoiam e tem na conta uma economia em recuperação e uma campanha de vacinação eficiente - apesar dos recorrentes protestos dos antivax contra suas medidas sanitárias.

Contudo, se for eleito presidente, Draghi terá de renunciar ao comando do governo, e os partidos que formam sua coalizão precisariam encontrar outro premiê para guiar o país até o fim da legislatura, em 2023.

Mas hoje é improvável que outra personalidade consiga reunir o apoio de partidos tão heterogêneos e ter capital político para se equilibrar na mesma corda bamba que Draghi atravessou sem sustos.

Silvio Berlusconi

Primeiro-ministro em três ocasiões, Berlusconi, 85, sempre reclamou por ter governado tendo presidentes "de esquerda" no Quirinale.

Chegar à Presidência é um sonho antigo do ex-premiê, que já em 2014 garantia ter a "profunda convicção" de que seria o melhor chefe de Estado na história do país. De fato, Berlusconi está empenhado há várias semanas em uma ativa campanha em busca de votos no Parlamento, meta que hoje parece longe de ser alcançada.

O ex-primeiro-ministro tem o apoio declarado da coalizão de direita, formada por seu próprio partido, o moderado Força Itália (FI), e as legendas de ultradireita Liga e Irmãos da Itália (FdI).

No entanto, esses três partidos não têm votos suficientes para eleger Berlusconi, que precisa do endosso de outras forças - também é incerto se Liga e FdI conseguiriam entregar todos os votos que prometem, já que o escrutínio é secreto.

A centro-esquerda e o antissistema Movimento 5 Estrelas (M5S) rechaçam a hipótese de votar em Berlusconi devido a seu passado controverso, ao histórico de problemas com a Justiça e ao fato de, ainda hoje, ele exercer oficialmente a liderança de um partido.

O ex-premiê já tem uma condenação definitiva por fraude fiscal, só escapou da cadeia por corrupção graças à prescrição e ainda responde a diversos processos por compra de testemunhas. 

Além disso, sua eventual eleição representaria uma ruptura na base aliada de Draghi, já que Liga e FI fazem parte do governo junto com a centro-esquerda e o M5S, e estes dois últimos defendem uma solução que englobe todos os partidos da situação.

Marta Cartabia

Com 58 anos de idade, Marta Cartabia é uma das ministras mais discretas do governo e pode se beneficiar da crescente pressão de organizações da sociedade civil pela eleição de uma mulher como presidente da República.

Até agora, apenas 12 inquilinos passaram pelo Palácio do Quirinale, todos eles homens, e Cartabia é uma das mais cotadas para romper essa predominância masculina no principal cargo institucional do país.

Ela foi juíza da Corte Constitucional durante nove anos e presidiu o tribunal entre 2019 e 2020, tendo sido a primeira mulher a exercer essa função. Em fevereiro de 2021, foi nomeada ministra da Justiça por Draghi e, apesar da falta de experiência política, conseguiu fazer o Parlamento aprovar uma ampla reforma do sistema penal.

Com uma longa carreira dedicada à Constituição, Cartabia tem um perfil distante das brigas partidárias, o que pode facilitar seu caminho para o Quirinale.

Elisabetta Casellati

Outra mulher cotada para o lugar de Mattarella é a atual presidente do Senado, Maria Elisabetta Alberti Casellati, uma antiga aliada de Silvio Berlusconi.

Com 75 anos, ela já totaliza quase duas décadas como senadora, foi subsecretária dos ministérios da Saúde e da Justiça e integrante do Conselho Superior de Magistratura, órgão chefiado pelo presidente da República.

Em novembro de 2013, apareceu vestida totalmente de preto no Senado para protestar contra a cassação de Berlusconi, que havia sido condenado em última instância por fraude fiscal.

Apesar da insistência do ex-premiê pelo Quirinale, há quem acredite que ele está apenas esticando a corda o máximo possível para, de última hora, propor um nome de seu campo político, mas que seja palatável para os outros.

Giuliano Amato

Com 83 anos, Giuliano Amato é talvez o mais experiente entre os nomes cotados para a Presidência. Em sua longa carreira política, já foi deputado, senador, ministro, premiê, juiz da Corte Constitucional e vice-presidente do tribunal, cargo que ocupa desde setembro de 2020.

Amato é um raro socialista que agrada a Berlusconi e tem o apelido de "doutor sutil" por causa de sua perspicácia política e de seu físico esguio.

O ex-premiê é sempre cogitado para o Quirinale, mas desta vez pode enfrentar a resistência das forças populistas - recentemente, Amato fez uma firme defesa dos migrantes econômicos, afirmando que é "absurdo" considerar clandestina uma pessoa que foge da miséria.

Paolo Gentiloni

Com estilo discreto e afável, Paolo Gentiloni, 67, já conseguiu subir aos altos escalões do poder e tem no currículo as experiências como ministro das Relações Exteriores, premiê e comissário de Economia da União Europeia, cargo que ele ocupa desde dezembro de 2019.

Filho da antiga nobreza italiana, Gentiloni é ligado à esquerda desde os tempos de estudante, o que pode afastar o apoio de partidos conservadores. Além disso, é visto com reservas no M5S, que enxerga os dedos da UE na manobra política que derrubou Giuseppe Conte no ano passado, possibilitando a ascensão de Draghi.

Pier Ferdinando Casini

Entre os possíveis candidatos ao Quirinale, Pier Ferdinando Casini, 66, é considerado aquele com o perfil mais político. Deputado por três décadas e senador desde 2013, o parlamentar é um antigo expoente da democracia-cristã e hoje pertence ao partido Centristas pela Europa.

Em seus 38 anos de Parlamento, apoiou governos da direita à esquerda, mas tem se mantido longe dos holofotes nos últimos meses, com raros pronunciamentos públicos. Seu principal cabo eleitoral seria o ex-premiê e senador de centro Matteo Renzi, já artífice da eleição de Mattarella em 2015.

Letizia Moratti

A atual vice-governadora e secretária de Bem-Estar Social da Lombardia também é uma pioneira: primeira mulher presidente da rede pública Rai e primeira mulher prefeita de Milão. Com 72 anos, Moratti já foi ministra da Educação em um dos governos de Berlusconi e hoje não pertence a nenhum partido, mas integra uma gestão encabeçada pela Liga na Lombardia.

A vice-governadora é conhecida como "dama de aço" devido a seu estilo firme e foi convocada para cuidar da área da saúde na região italiana que mais sofreu com a pandemia de Covid-19, conseguindo colocar ordem no sistema sanitário local.

No entanto, a sugestão de distribuir vacinas de acordo com o PIB de cada região provocou mal-estar no restante do país.

Sergio Mattarella

Presidente desde fevereiro de 2015, Sergio Mattarella, 80, já mandou recados indicando que não quer ser reeleito para mais sete anos de mandato.

Ainda assim, seu nome corre pela boca dos parlamentares pelo fato de que sua recondução seria uma forma de manter tudo como está – Mattarella no Quirinale e Draghi no governo –, afastando o risco de uma crise política faltando um ano para o fim da legislatura.

O atual presidente é bem aceito pelos italianos e pelos próprios partidos. Além disso, a próxima eleição legislativa terá uma redução de um terço no número de deputados e senadores, então é natural que muitos deles desejem adiar as urnas o máximo possível.

O que joga contra a reeleição é a própria vontade de Mattarella, que teme normalizar algo que deveria ocorrer apenas em situações excepcionais, ainda mais para um cargo de mandato tão longo.

Em 75 anos de República, a Itália teve apenas um presidente reeleito: Giorgio Napolitano, em 2013, mas ele renunciaria em 2015, antes da metade de seu segundo mandato. (ANSA)

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