(Análise) Espionagem embaraça governo dos EUA no mundo

Denúncias de Edward Snowden abalaram relações com outros países

O ex-analista Edward Snowden é o responsável pelos vazamentos sobre o programa de vigilância da NSA (foto: EPA)
09:12, 26 DezSÃO PAULO Lucas Rizzi

(ANSA) – Até pouco tempo atrás, Edward Joseph Snowden não passava de um simples analista do serviço de inteligência norte-americano. Um homem comum de 30 anos, mas que na posição de colaborador terceirizado da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, tinha acesso a informações tão valiosas quanto confidenciais sobre o programa de vigilância eletrônica do país. Em junho deste ano, graças a esses dados, ele passou do anonimato para a notoriedade e desencadeou um turbilhão nas relações diplomáticas entre os EUA as principais nações do mundo.

 

A polêmica começou quando o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem onde mostrava que o governo norte-americano monitorou os telefonemas de milhões de usuários da operadora Verizon, utilizando a justificativa do combate ao terrorismo. No dia seguinte, a imprensa revelou que a agência também conseguia acessar diretamente os sistemas de empresas como Google, Facebook, You Tube, Yahoo, Apple e Microsoft. Para isso, era usado um programa chamado Prism, que serve para interceptar emails, históricos e conversas online. Em meio às denúncias, o presidente Barack Obama foi obrigado a pronunciar-se sobre o assunto e defendeu a espionagem. “Não podemos ter 100% de segurança com 100% de privacidade”, afirmou na época o mandatário.

 

Em entrevista ao The Guardian, o próprio Snowden admitiu ser o responsável pelo vazamento das informações secretas. Escondido em um hotel de Hong Kong, o ex-analista foi acusado formalmente em 22 de junho pela Justiça dos Estados Unidos, que pediu sua extradição imediata. Logo em seguida ele embarcou para Moscou e permaneceu durante mais de um mês no aeroporto internacional da capital russa. Nesse período, fez mais de 20 solicitações de asilo, incluindo a países como Brasil, Bolívia, China, Cuba, Itália, Suíça e Venezuela. Até que teve um deles aceito pelo governo de Vladimir Putin.

 

Mas o cerco a Snowden não interrompeu os vazamentos. Logo as denúncias colocaram como alvo de espionagem alguns dos principais líderes políticos do planeta. Na mira dos Estados Unidos estiveram o celular da chanceler alemã, Angela Merkel, e as comunicações da presidente do Brasil, Dilma Rousseff, com seus assessores. A rede privada de computadores da Petrobras e o Ministério de Minas e Energia também foram monitorados.

 

O escândalo abalou a já combalida popularidade de Obama e provocou discursos de condenação pelo mundo todo – embora na prática poucas medidas concretas tenham sido tomadas. A reação mais forte veio do próprio governo brasileiro. As revelações levaram Dilma a cancelar uma viagem que faria em outubro a Washington e, em certa medida, tiveram seu papel na decisão do governo de gastar US$ 4,5 bilhões (R$ 10,9 bilhões) na compra de 36 caças da sueca Saab, em detrimento dos modelos da norte-americana Boeing.

 

Além disso, o Brasil apresentou na ONU, ao lado da Alemanha, o projeto de resolução “O direito à privacidade na era digital”, que trata de ações “extraterritoriais de Estados em matéria de coleta de dados, monitoramento e interceptação de comunicações”. Aprovada recentemente pelos 193 membros da organização, a medida diz que as pessoas devem ter garantidos no ambiente digital os mesmos direitos que têm fora dele.

 

No âmbito interno, um tribunal federal norte-americano colocou em dúvida pela primeira vez as atividades de monitoramento da NSA. Segundo o juiz Richard Leon, o Departamento de Estado não conseguiu provar que a espionagem contribuiu de algum modo para evitar ataques terroristas.

 

Contudo, o tema que mexeu com a política internacional em 2013 continua dando pano pra manga e deve permanecer na ordem do dia durante o próximo ano. Novas denúncias continuam surgindo, enquanto a NSA e Obama buscam maneiras de restaurar a confiança nas suas ações.

 

E ainda há outra questão: o que será de Edward Snowden? Seu asilo na Rússia termina somente em agosto, mas ele já iniciou uma campanha para receber permissão para viver no Brasil, o que pode gerar novos atritos diplomáticos com os Estados Unidos. Enquanto isso, convém ficar ligado nos novos desdobramentos da polêmica - e tomar cuidado com o que se conversa no telefone.

 

A evolução do escândalo de espionagem nos últimos meses:

 

  • 06 de junho - O jornal britânico The Guardian publica uma matéria onde diz que a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos monitoraram as ligações de milhões de usuários da operadora Verizon, usando a justificativa do combate ao terrorismo.
  • 07 de junho - Novas denúncias apontam que a NSA conseguia acessar diretamente os sistemas de Google, Facebook, Yahoo, entre outras empresas, por meio de um programa chamado Prism. No mesmo dia, Barack Obama assume os atos de espionagem.
  • 09 de junho - Escondido em Hong Kong, o ex-analista dos serviços de vigilância norte-americanos Edward Snowden admitiu em uma entrevista ser o responsável pelo vazamento dos documentos secretos sobre o programa de espionagem dos EUA.
  • 22 de junho - A Justiça dos Estados Unidos formaliza uma acusação contra Snowden e pede a sua extradição. No dia seguinte, o ex-analista foge para a Rússia e se esconde na área de trânsito do Aeroporto Internacional de Moscou.
  • 29 de junho - Documentos revelam a espionagem contra um escritório da União Europeia em Washington e a sede da Organização das Nações Unidas em Nova York.
  • 01 de julho - É revelado que a NSA montou uma lista de 38 embaixadas e missões diplomáticas classificadas “alvos de espionagem”, incluindo países como Itália, Alemanha e França.
  • 01 de agosto - Após ficar por mais de um mês no aeroporto de Moscou, Snowden recebe asilo por um ano na Rússia.
  • 01 de setembro - Reportagem do programa Fantástico, da TV Globo, mostra que a presidente Dilma Rousseff também foi alvo de espionagem dos Estados Unidos.
  • 08 de setembro - Nova denúncia do Fantástico aponta que a NSA monitorou a rede privada de computadores da Petrobras.
  • 17 de setembro - Após escândalo de espionagem, Dilma cancela uma viagem a Washington programada para 23 de outubro.
  • 07 de outubro - Documentos entregues por Snowden ao jornalista Glenn Greenwald revelam que o Ministério de Minas e Energia do Brasil também foi espionado.
  • 23 de outubro - Imprensa alemã denuncia que o celular da chanceler Angela Merkel teria sido monitorado pelo governo norte-americano. No dia seguinte, uma matéria do The Guardian apontou que as comunicações de 35 líderes políticos e militares mundiais foram espionadas.
  • 01 de novembro - O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, admite que os serviços de inteligência de Washington foram "longe demais".
  • 17 de dezembro - Edward Snowden inicia uma campanha para conseguir asilo político no Brasil.
  • 18 de dezembro - Proposta de resolução sobre espionagem apresentada por Brasil e Alemanha na ONU é aprovada por unanimidade. (ANSA)

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