Presidente da Tunísia destitui premiê e suspende Parlamento

Berço da Primavera Árabe mergulhou em nova crise política

Manifestante comemora destituição de premiê no topo do Parlamento, em Túnis
Manifestante comemora destituição de premiê no topo do Parlamento, em Túnis (foto: EPA)
10:00, 26 JulTÚNIS ZLR

(ANSA) - Berço da Primavera Árabe, a Tunísia mergulhou neste fim de semana em uma crise política que coloca em risco sua ainda jovem democracia.

O presidente Kais Saied destituiu o primeiro-ministro Hichem Mechichi e suspendeu os trabalhos do Parlamento por 30 dias no último domingo (25), na esteira de uma nova jornada de protestos contra o governo por causa da crise econômica e da gestão da pandemia de Covid-19.

Eleito presidente em 2019, Saied assumiu temporariamente as funções de chefe de governo, se apoiando em um artigo da Constituição que permite o congelamento dos trabalhos do Parlamento em caso de "perigo iminente".

O presidente anunciou que nomeará um novo premiê para ajudá-lo a governar o país e que revogará a imunidade parlamentar dos deputados. Mechichi foi destituído no 64º aniversário de proclamação da República da Tunísia, ocasião em que milhares de cidadãos saíram às ruas para protestar contra a classe dirigente.

Na capital Túnis, a decisão de Saied foi recebida com festa por parte dos manifestantes que protestavam contra o partido islâmico Ennahda, dono da maior bancada no Parlamento, e contra o primeiro-ministro.

O Ennahda, no entanto, acusou o presidente de promover um "golpe" e prometeu "defender a revolução". Já Saied rebateu que "quem fala em golpe de Estado deveria ler a Constituição e voltar para a escola". "Fui paciente e sofri com o povo tunisiano", justificou.

O presidente ainda diz ter informado previamente o chefe do Parlamento e líder do Ennahda, Rached Ghannouchi, que nega.

Veículos militares cercaram o prédio do Parlamento, e Saied determinou também o fechamento da sede local da emissora catariana Al Jazeera.

Primavera

Saied é apenas o segundo presidente eleito por voto universal na Tunísia, caso único de democracia - ainda que frágil e incipiente - entre os países que protagonizaram a Primavera Árabe.

A onda de revoltas contra o autoritarismo e a pobreza no norte da África e no Oriente Médio começou justamente na Tunísia, em 17 de dezembro de 2010, quando o verdureiro Mohamed Bouazizi ateou fogo no próprio corpo para protestar contra a falta de trabalho e os abusos da polícia.

Desde então, alguns países da Primavera Árabe, como Síria e Iêmen, continuam afundados em guerras, enquanto outros, como o Egito, voltaram a ter governos autoritários.

Apesar de ter iniciado um percurso democrático, a Tunísia conviveu na última década com uma perene instabilidade política, que sempre bloqueou esforços para relançar a economia e fazer as reformas pedidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A fragmentada classe política jamais foi capaz de formar governos duradouros e eficazes, culminando na ruptura entre Saied e Mechichi. (ANSA)

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