China e Rússia aproveitam saída dos EUA e dialogam com Talibã

Potências usaram tom amistoso para se referir ao grupo

Militantes do Talibã do lado de fora do Aeroporto Internacional Hamid Karzai
Militantes do Talibã do lado de fora do Aeroporto Internacional Hamid Karzai (foto: EPA)
13:56, 16 AgoMOSCOU ZLR

(ANSA) - Enquanto potências ocidentais prometem não reconhecer o governo do Talibã no Afeganistão, China e Rússia indicaram nesta segunda-feira (16) que vão dialogar com o grupo fundamentalista islâmico, ocupando o vácuo deixado pela retirada dos Estados Unidos.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Hua Chunying, afirmou que Pequim está disposta a desenvolver "relações amigáveis" com o Talibã e "respeita o direito do povo afegão de determinar o próprio futuro de modo independente".

De acordo com Hua, a China quer ter um "papel construtivo na paz e na reconstrução do Afeganistão". "Esperamos que os talibãs e todos os partidos e grupos étnicos possam criar uma estrutura para o Afeganistão, colocando as bases para a paz", acrescentou o governo chinês, acusado de perseguir a minoria muçulmana uigure em Xinjiang, que faz fronteira com o território afegão.

"Os talibãs nunca permitirão que nenhuma força use seu território para colocar a China em perigo", declarou Hua.

Rússia

Já o enviado russo para o Afeganistão, Zamir Kabulov, disse que o embaixador de Moscou em Cabul, Dmitry Zhirnov, já está em contato com representantes do Talibã, com quem vai se encontrar pessoalmente nesta terça-feira (17).

"Supreendentemente, a situação está em perfeita calma, as forças dos talibãs entraram tranquilamente em Cabul", declarou Kabulov, acrescentando que o grupo é sustentado financeiramente por fundações islâmicas do Golfo Pérsico.

Além disso, o embaixador Zhirnov disse que o Talibã prometeu construir um Afeganistão "civilizado, livre do terrorismo e do tráfico de drogas". "Com base nesses princípios, vamos decidir nossa linha [se reconhecer ou não o regime], mas precisamos esperar, os talibãs entraram na cidade [Cabul] apenas ontem", acrescentou.

O grupo fundamentalista islâmico já governou o Afeganistão de 1996 a 2001, quando foi derrubado pela invasão americana deflagrada pelos atentados de 11 de setembro.

No entanto, apesar de 20 anos de ocupação, os EUA não conseguiram derrotar o Talibã, que reassumiu o controle do país apenas algumas semanas depois da retirada militar americana e da Otan.

O grupo prega a aplicação radical da Sharia, a lei islâmica, especialmente contra as mulheres, que sob o regime do Talibã não podiam estudar e sequer sair de casa sem a companhia de um parente homem.

No último fim de semana, um porta-voz do grupo prometeu "respeitar os direitos das mulheres" e permitir seu acesso à educação, mas essa versão "moderada" do Talibã ainda é vista com ceticismo no mundo. (ANSA)

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