Cardeais conservadores questionam Papa sobre divórcio

Eles enviaram carta sobre texto publicado sobre as famílias

O cardeal Raymond Leo Burke foi um dos signatários da carta enviada ao Papa
O cardeal Raymond Leo Burke foi um dos signatários da carta enviada ao Papa (foto: Wikimedia Commons)
19:49, 16 NovCIDADE DO VATICANO ZGT

(ANSA) - Quatro cardeais apresentaram questionamentos ao papa Francisco sobre sua exortação apostólica "Amoris Laetitia" ("A alegria do amor", em tradução), lançada em 8 de abril, e que fala sobre as famílias atuais.


A carta chamada de "dubbia" ("dúvidas") foi assinada pelo cardeal Raymond Leo Burke, um dos mais conservadores do clero norte-americano e ferrenho defensor da interpretação rígida da doutrina católica, pelo cardeal Walter Brandmüller, que já atuou como presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas durante o Pontificado de Bento XVI, e pelos arcebispos eméritos Carlo Caffara (que está em Bolonha, na Itália) e o alemão Joachim Meisner (que atua em Colônia).

 

O grupo de religiosos enviou a carta para à Congregação para a Doutrina da Fé no dia 19 de setembro, mas como não receberam uma resposta do papa Francisco, resolveram tornar o documento público.

 

"Nós constatamos a grave perda de muitos fiéis e uma grande confusão sobre o mérito dessas questões muito importantes para a vida na Igreja. Nós notamos que no interior do colégio episcopal são dadas interpretações contrastantes sobre o capítulo oitavo de 'Amoris laetitia'. A grande Tradição da Igreja nos ensina que a via para sair dessas situações como esta é recorrer ao Santo Padre", escreveram os cardeais.

 

O documento apresenta cinco dúvidas principais relacionadas ao capítulo 8 da exortação. Em resumo, elas focam nas questões dos divorciados que estão casados novamente e que desejam comungar. O ato é proibido pela Igreja, mas no documento, o Papa pede uma maior abertura à eles porque nenhuma punição "deve ser eterna" e para que eles saibam que não estão excomungados, isto é, proibidos de participar da vida religiosa.

 

"Essa é a fonte de toda a confusão. Também as diretivas diocesanas são confusas e erradas. Nós temos uma série diversas de normas: em uma diocese, por exemplo, os sacerdotes da confissão são autorizados a serem livres, se acharem necessário, de permitir [o sacramento] a uma pessoa que vive em uma união adúltera e continua sendo", explicou Burke em uma entrevista ao"National Catholic Register".

 

"Já em outra e, de acordo com o que sempre foi a prática da Igreja, o sacerdote pode conceder tal permissão a uma pessoa que vive em uma união adúltera a quem assume o compromisso de viver castamente no interior de um matrimônio, vale dizer como irmão e irmã, e de receber o sacramento apenas em locais onde há essa questão de escândalo", acrescentou. Segundo o cardeal norte-americano, "se dissermos, em certos casos, que uma pessoa vive em uma união matrimonial irregular pode receber a Santa Comunhão, então das duas uma: ou o matrimônio não é verdadeiramente indissolúvel ou a santa Comunhão não é comunhão com o Corpo e o Sangue de Cristo.

 

"Naturalmente, nenhuma dessas hipóteses são possíveis porque estão em contradição com os ensinamentos da Igreja", destacou. O cardeal ainda disse que, caso o papa Francisco não lhes dê uma resposta, "há a possibilidade de corrigir o Pontífice Romano", em um ato "muito raro".

 

Ao contrário da entrevista, no entanto, os quatro cardeais dizem respeitar a decisão do sucessor de Bento XVI de não respondê-los.

 

"O Santo Padre decidiu não responder. Nós interpretamos essa sua soberana decisão como um convite a continuar a reflexão e a discussão, pacata e respeitosa. [...] Esperamos que ninguém interprete o fato no esquema progressistas-conservadores. Estamos profundamente preocupados com o trabalho de bem pelas almas, pela suprema lei da Igreja e de não fazer progredir na Igreja qualquer forma de política", escreveram os quatro cardeais. 

 

Os religiosos ainda acrescentaram que "não somos adversários do Santo Padre" e que estão divulgando seus questionamentos ao público a partir de "uma profunda afeição que nos une ao Papa e da apaixonada preocupação com o bem dos fiéis".

 

A exortação

 

Lançada em 8 de abril, a exortação abre mais espaço para os divorciados e prega respeito aos homossexuais.

 

Sobre o primeiro ponto, o Papa diz que é "importante deixar as pessoas que vivem uma nova união saberem que são parte da Igreja, que não estão excomungadas", acrescentando que "ninguém pode ser condenado para sempre, pois esta não é a lógica do Evangelho".

 

Já sobre os gays, o Pontífice pede que a Igreja não os discrimine, mas que o casamento entre as pessoas do mesmo sexo não está "no desenho de Deus". O Papa ainda fala sobre a sexualidade, definindo- a como "um presente maravilhoso de Deus".

 

Jorge Mario Bergoglio ainda defende as mulheres na exortação, daquelas que são vítimas de "violência física e sexual", defendendo de certa maneira que elas se separem do cônjuge, e pede mais ação para a proteção delas. Segundo o líder católico, a violência no casamento "contradiz a própria natureza da união conjugal".(ANSA)

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