Papa celebra Via Crucis com mensagens de redenção

Celebração ocorreu na Praça São Pedro por causa de pandemia

Papa celebra Via Crucis na Praça São Pedro
Papa celebra Via Crucis na Praça São Pedro (foto: ANSA)
17:56, 10 AbrCIDADE DO VATICANO ZLR

(ANSA) - Em mais uma cerimônia marcada pelo ineditismo por causa da pandemia do novo coronavírus (Sars-Cov-2), o papa Francisco presidiu nesta sexta-feira (10) o tradicional rito da Via Crucis.

Essa foi a primeira vez desde o início do Pontificado de Jorge Bergoglio, em 2013, que uma das celebrações mais importantes da Semana Santa aconteceu na Praça São Pedro, vazia por causa da pandemia, e não no Coliseu de Roma, já que o governo da Itália colocou todo o país em quarentena.

Os textos das meditações da Via Crucis foram confiados à Capelania da Casa de Reclusão Due Palazzi, em Pádua, norte italiano. Entre os autores estão cinco detentos, uma família que perdeu uma filha por homicídio, a filha de um condenado à prisão perpétua, a educadora de uma cadeia, um juiz, a mãe de um presidiário, um catequista, um voluntário, um agente da Polícia Penitenciária e um sacerdote absolvido pela Justiça.

"Minha crucificação começou quando eu era criança. Vejo-me encolhido no ônibus que me levava para a escola, excluído por causa de minha gagueira, sem nenhum relacionamento. Comecei a trabalhar quando era pequeno, sem poder estudar: a ignorância levou a melhor sobre a minha ingenuidade. O bullying, depois, roubou imagens da infância daquele menino nascido na Calábria dos anos 1970. Pareço mais com Barrabás do que com Cristo, mas a condenação mais feroz permanece sendo a da minha consciência: de noite, abro os olhos e busco desesperadamente uma luz que ilumine minha história", diz a meditação lida na primeira estação da Via Crucis, feita por um condenado à prisão perpétua.

"Sinto desprezo pelo passado, ainda que seja minha história. Vivi durante anos submetido ao regime restritivo do 41-bis [isolamento total geralmente imposto a mafiosos], e meu pai morreu na mesma condição. Tantas vezes, de madrugada, o ouvi chorar na cela. Ele disfarçava, mas eu percebia. Estávamos ambos no escuro profundo. Naquela não-vida, no entanto, sempre busquei algo que fosse vida: é estranho dizer, mas o cárcere foi minha salvação", acrescenta o texto.

A meditação foi seguida pela mensagem de um casal cuja filha foi assassinada junto com uma amiga. "A nossa sempre foi uma vida de sacrifícios, fundada no trabalho e na família. Ensinamos a nossos filhos o respeito pelo próximo e o valor do serviço para quem é mais pobre. Frequentemente nos perguntamos: por que esse mal nos atingiu? Não encontramos paz. Nem a Justiça, em quem sempre acreditamos, foi capaz de curar as feridas mais profundas. Nossa condenação ao sofrimento permanecerá até o fim", diz o texto.

Na meditação, o casal afirma que o caminho para sua salvação está na caridade. "Não queremos nos render ao mal", afirmam, apesar da "pior dor que existe: sobreviver à morte de uma filha".

Absolvição

A 11ª estação foi marcada pelo depoimento de um padre absolvido após uma década de processo. O texto não menciona o crime que era atribuído ao sacerdote, mas diz que a acusação foi feita por um "garoto".

"O momento mais escuro foi ver meu nome fora da sala do tribunal: naquele momento, entendi que era um homem obrigado a demonstrar sua inocência, sem ser um culpado. Permaneci pendurado na cruz por 10 anos: foi a minha Via Crucis povoada de suspeitas, acusações, injúrias", afirma o padre em sua meditação. "No dia em que fui plenamente absolvido, descobri que era mais feliz do que 10 anos antes", acrescenta, dizendo que reza pelo "garoto" que o acusa.

O primeiro a carregar a cruz foi Michele, ex-detento do centro de reclusão Due Palazzi que se tornou empreendedor após cumprir sua pena. Ele foi seguido pelo diretor da cadeia, Claudio Mazzeo, pela vice-delegada da Polícia Penitenciária Maria Grazia Grassi, por um agente da corporação, pela voluntária Tatiana Mario e pelo capelão Marco Pozza.

Também carregaram a cruz pelas 14 estações da Via Crucis alguns profissionais do Fundo de Assistência Sanitária do Vaticano que cuidam de pacientes da Covid-19, como a internista Esmeralda Capristo e o anestesista Paolo Maurizio Soave, ambos do Hospital Policlínico Gemelli, de Roma.

O percurso começou nos arredores do Obelisco da Praça São Pedro e girou em torno do monumento nas primeiras oito estações. Em seguida, percorreu um caminho em linha reta até as mãos do Papa, que segurou a cruz na 14ª e última estação. (ANSA)

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