Papa pede perdão a indígenas do Canadá por crimes em escolas

Nativos acharam covas com centenas de corpos em internatos

Indígenas do Canadá em missão no Vaticano
Indígenas do Canadá em missão no Vaticano (foto: ANSA)
12:36, 01 Abr zcc

(ANSA) - O papa Francisco pediu desculpas nesta sexta-feira (1º) pelos crimes cometidos em antigos internatos católicos para crianças indígenas no Canadá.

Em uma audiência pública com nativos e bispos canadenses, Jorge Bergoglio expressou "indignação, vergonha e dor" pelo papel que membros da Igreja tiveram "nos abusos e na falta de respeito" contra a identidade, a cultura e "até os valores espirituais" dos indígenas.

"Tudo isso é contrário ao Evangelho de Jesus. Pela reprovável conduta daqueles membros da Igreja Católica, peço perdão a Deus e gostaria de dizer a vocês do fundo do coração: estou muito entristecido e me uno aos irmãos bispos canadenses para pedir-lhes desculpas", disse o Papa em seu discurso.

"Não se pode transmitir os conteúdos da fé por meio de uma modalidade estranha à própria fé. É terrível quando, precisamente em nome da fé, se faz um contratestemunho do Evangelho", acrescentou Francisco.

A audiência com os indígenas canadenses ocorreu após a descoberta de valas comuns com centenas de corpos não identificados, sobretudo de crianças, em antigos internatos do governo administrados pela Igreja Católica.

As primeiras covas foram encontradas em maio passado, no terreno de uma antiga escola de Kamloops, na província ocidental da Colúmbia Britânica, expondo as feridas nunca curadas da cristianização forçada de povos nativos canadenses.

Esses internatos tinham como objetivo "educar" os indígenas de acordo com os preceitos católicos, mas, para isso, retiravam crianças à força de suas comunidades e as obrigavam a abandonar seus costumes e sua língua. Além disso, os alunos eram vítimas frequentes de abusos sexuais e físicos por parte dos professores.

A Igreja Católica no Canadá já havia pedido perdão em setembro de 2021, após ataques contra paróquias em protesto contra os crimes cometidos nas escolas residenciais, mas Francisco ainda não tinha se desculpado oficialmente.

Ao longo da semana, o Papa se reuniu com delegações dos povos métis e inuit e com representantes da Assembleia das Primeiras Nações (do inglês "First Nations", como são chamadas as comunidades nativas do Canadá), oportunidades em que ouviu relatos referentes aos internatos.

"Pude tocar com a mão e trazer para dentro de mim, com grande tristeza, os relatos de sofrimentos, privações, tratamentos discriminatórios e várias formas de abusos sofridos por muitos de vocês, principalmente nas escolas residenciais. É arrepiante pensar no desejo de incutir um sentimento de inferioridade, de fazer alguém perder a própria identidade cultural, de cortar as raízes, com todas as consequências pessoais e sociais que isso causou e continua provocando", declarou o pontífice.

Estima-se que cerca de 150 mil indígenas tenham passado pelas escolas residenciais até a década de 1970. "Gostaria de dizer a vocês que a Igreja está do seu lado e quer continuar caminhando com vocês", afirmou.

O Papa ainda disse que visitará o Canadá em breve, provavelmente no fim de julho, quando os católicos celebram Santa Ana. "Sinto alegria ao pensar na veneração por Santa Ana, avó de Jesus, disseminada entre muitos de vocês. Neste ano, quero estar com vocês naqueles dias. Vamos nos ver no Canadá, onde poderei expressar melhor minha proximidade", declarou. (ANSA)

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