Na COP28, Lula cobra países ricos por 'acordos não cumpridos'

Petista ainda se reunirá com presidente da Comissão Europeia

Manifestação pelo clima em Bangladesh (foto: EPA)
Manifestação pelo clima em Bangladesh (foto: EPA)

(ANSA) - Em duro discurso na COP28 em Dubai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou dos países ricos o cumprimento de acordos para tentar combater as mudanças climáticas e a ajuda financeira a países pobres.

Segundo o petista, "o não cumprimento dos compromissos assumidos" em convenções e acordos sobre o meio ambiente "corroeu a credibilidade do regime".

"Em 2009, quando participei da COP15, em Copenhague, as negociações fracassaram e foi preciso um grande esforço para recuperar a confiança e chegar ao Acordo de Paris, em 2015", declarou. "O não cumprimento dos compromissos assumidos corroeu a credibilidade do regime. É preciso resgatar a crença no multilateralismo", acrescentou.

De acordo com o presidente do Brasil, "é inexplicável que a ONU, apesar de seus esforços, se mostre incapaz de manter a paz, simplesmente porque alguns dos seus membros lucram com a guerra".

Para ele, "é lamentável que acordos como o Protocolo de Kyoto (1997) ou os Acordos de Paris (2015) não sejam implementados".

Lula ressaltou ainda que "governantes não podem se eximir de suas responsabilidades" e "nenhum país resolverá seus problemas sozinho".

Durante o discurso, lembrou também que "2023 já é o ano mais quente dos últimos 125 mil anos" e a "humanidade sofre com secas, enchentes e ondas de calor cada vez mais extremas e frequentes".

Ele citou a seca na Amazônia e ciclones na região sul do país, além da necessidade de ter uma economia menos dependente de combustíveis fósseis.

"No Norte do Brasil, a Amazônia amarga uma das mais trágicas secas de sua história. No Sul, tempestades e ciclones deixam um rastro inédito de destruição e morte. A ciência e a realidade nos mostram que desta vez a conta chegou antes", afirmou.

Para o líder brasileiro, "o planeta já não espera para cobrar da próxima geração", principalmente porque "está farto de acordos não cumpridos, de metas de redução de emissão de carbono negligenciadas, do auxílio financeiro aos países pobres que não chega, de discursos eloquentes e vazios".

Lula defendeu "atitudes concretas" e questionou: "Quantos líderes mundiais estão de fato comprometidos em salvar o planeta?" Segundo ele, "somente no ano passado, o mundo gastou mais de US$ 2 trilhões e US$ 224 milhões em armas. Quantia que poderia ser investida no combate à fome e no enfrentamento da mudança climática".

"Quantas toneladas de carbono são emitidas pelos mísseis que cruzam o céu e desabam sobre civis inocentes, sobretudo crianças e mulheres famintas? A conta da mudança climática não é a mesma para todos. E chegou primeiro para as populações mais pobres", alertou.

O chefe de Estado brasileiro explicou que "o 1% mais rico do planeta emite o mesmo volume de carbono que 66% da população mundial" e destacou o sofrimento das pessoas vulneráveis por causa das catástrofes climáticas.

"A injustiça que penaliza as gerações mais jovens é apenas uma das faces das desigualdades que nos afligem. O mundo naturalizou disparidades inaceitáveis de renda, gênero e raça. Não é possível enfrentar a mudança do clima sem combater as desigualdades", afirmou.

Por fim, o petista afirmou também que o Brasil deve liderar a luta contra as mudanças climáticas e prometeu impulsionar "a "industrialização verde, agricultura de baixo carbono, e bioeconomia", além de forjar "uma visão comum com os países amazônicos" e consensos com outros "países detentores de florestas tropicais".

Lula também disse que vai zerar o desmatamento na Amazônia até 2030, tendo em vista que seu governo formulou "um plano de transformação ecológica".

Agenda

O presidente chegou ontem a Dubai, onde está acompanhado por uma numerosa comitiva de ministros, entre eles os titulares da Economia, Fernando Haddad, e do Meio Ambiente e Mudança Climática, Marina Silva.

Nesta sexta, ele vai se reunir com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, para analisar os avanços nas negociações para firmar o acordo entre o bloco e o Mercosul.

Ontem, o governo brasileiro disse que houve avanços nas conversas, mas que ainda não é seguro que o pacto será fechado na cúpula do Mercosul da semana próxima, no Rio de Janeiro.

A agenda de Lula também inclui conversas com o presidente de Israel, Isaac Herzog, os premiês do Reino Unido e Espanha, Rishi Sunak e Pedro Sánchez, respectivamente.

Logo depois, terá uma reunião com o secretário-geral da ONU, António Guterres, e participará de um jantar junto com o presidente dos Emirados Árabes, Mohamed bin Zayed. (ANSA).