Por que os casos de feminicídio na Itália não diminuem?

Crimes são cada vez mais praticados por jovens do sexo masculino

Protesto em homenagem às vítimas de violência contra mulher (foto: ANSA)
Protesto em homenagem às vítimas de violência contra mulher (foto: ANSA)

(ANSA) - O flagelo da violência contra as mulheres na Itália está cada vez mais difícil de ser combatido. Dados do Ministério do Interior mostram que de 1º de janeiro a 28 de maio de 2023 foram registrados 129 homicídios na Itália, sendo 45 vítimas do sexo feminino. Destas, 37 foram mortas no círculo familiar.

De fato, em relação ao mesmo período de 2022, o número de homicídios cometidos por um companheiro ou ex-parceiro aumentou, passando de 22 para 23 (+5%). Inclusive, os crimes são cada vez mais praticados por jovens do sexo masculino.

A violência contra mulher na península tem se tornado frequente e gerado um  questionamento: por que os casos de feminicídio na Itália não diminuem?

Campanhas de conscientização, iniciativas de apoio às vítimas, novos projetos de lei e até punições mais rígidas ainda não parecem suficientes: uma mulher é morta a cada três dias por um homem, enquanto a violência sexual, maus-tratos assédio, perseguição, violência psicológica e econômica, pornografia de vingança e violência digital continuam, incessantes e inaceitáveis.

Após décadas de lutas feministas e direitos conquistados, a visão do corpo da mulher permanece como objeto de posse, de submissão, de uso, filha da pior cultura arcaica e patriarcal. Olhar para trás ajuda a entender o fenômeno e o quanto ainda há para ser feito.

No país europeu, o crime de honra foi abolido em 1981, juntamente com o casamento forçado. A violência sexual só se tornou crime há 27 anos, em 1996. Antes disso, com o Código Rocco da era fascista, estupro era crime contra os bons costumes.

Atualmente, a Itália ainda é considerada um país imaturo, que não aceita a cultura do respeito, da igualdade e dos direitos das mulheres. Há homens, em sua maioria jovens, que matam por recusa, porque ficam para trás ou simplesmente pelo fato de não aceitarem a liberdade e as escolhas das mulheres, ou seja, por seu sentimento de posse.

A violência de gênero tem matriz cultural, até porque é baseada na desigualdade. A cultura patriarcal, desde os primórdios dos tempos, atribui um papel minoritário às mulheres que, por sua vez, internalizam, mesmo que inconscientemente, uma série de comportamentos para aderir ou se aproximar deste modelo.

E na educação das meninas - ao contrário da dos meninos-, esse modelo é mais frequentemente transmitido de geração em geração. A tal ponto que as mulheres às vezes não percebem alguns sinais de violência.

O ciúme, a possessão, ter que pedir licença a um homem, o isolamento que os violentos praticam para com as suas companheiras são indicadores de uma relação desigual, de uma perigosa limitação das liberdades e dos direitos. 

Se um homem controla ou administra o dinheiro e as despesas de sua parceira - uma em cada três mulheres na Itália não tem conta bancária pessoal -, é uma violência econômica, uma saída fácil para a violência psicológica e física. 

Por uma série de razões, quem sofre violência – seja ela econômica, psicológica, física, digital – nem sempre a reconhece de imediato como tal. Embora muito tenha sido feito, especialmente por associações da área, ainda há um longo caminho a percorrer na emergência da violência de gênero. 

Dados do Global Gender Gap, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial, revelam que a Itália caiu do 63º para o 79º lugar entre um total de 146 países com comportamentos virtuosos em relação às mulheres.

Segundo o relatório, no ritmo atual, o "Belpaese" levará 132 anos para atingir a paridade de gênero total.

O machismo enraizado no país também está presente até nos tribunais e diz respeito sobretudo às sentenças. A Itália, inclusive, tem sido repetidamente condenada por sexismo em decisões do Comitê Cedaw da ONU e da Corte Europeia de Direitos Humanos em Estrasburgo. 

As motivações estão repletas de preconceitos machistas contra as mulheres e isso só perpetua a vitimização secundária, minimização e normalização da violência masculina contra as mulheres. 

“Em algumas frases é como se a violência fosse a reação a um comportamento das mulheres. A verdade é que as conquistas da liberdade e dos direitos das mulheres não são aceitas. A violência de gênero é produto de uma ‘rebelião’ das mulheres”, explicou a advogada Teresa Manente, chefe do escritório jurídico da Differenza Donna, instituição antiviolência contra mulheres.

O fenômeno também afeta mulheres com deficiência. Os primeiros dados do Instituto Nacional de Estatísticas (Istat) foram divulgados em 2014 e revelam que 72% das mulheres com deficiência sofreram violência ao longo da vida e que são vítimas de crimes sexuais mais do que o dobro em relação às mulheres normotípicas.

Para haver uma melhora nos dados, segundo a associação,  é preciso uma mudança cultural, que começa com o papel da mulher na sociedade, partindo da redução no número de desempregadas e de um treinamento sistêmico de profissionais públicos para não subestimar os sinais de violência.

Além disso, entre as principais medidas está a necessidade de focar em um bom acolhimento, porque muitas mulheres são expostas a riscos e hostilizadas quando pedem ajuda. A subestimação da violência é frequente, razão pela qual também deve haver um compromisso econômico para iniciar uma formação sistêmica na sociedade, essencial para uma mudança real. (ANSA)